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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Texto "Tempo é tempo; dinheiro é dinheiro" de Carlo Carrenho

Faz sentido guardar dinheiro para um futuro mais tranquilo, mas guardar tempo é impossível. Repense como você utiliza seu tempo.


Tempo é dinheiro. Quantas vezes já ouvimos isso? E quantas vezes acreditamos em tal afirmação? Ultimamente, estou em uma fase do tipo “sem tempo para nada”: a caixa de entrada de e-mails virou uma avalanche de ansiedade, não consigo falar com todos que quero e nem dar retorno como gostaria. Há ainda os telefonemas, as chamadas pelo Facebook, as mensagens por Twitter...

Tamanho excesso de atividades me fez pensar um pouco mais sobre o tempo. Em primeiro lugar, deixemos claro: acreditar que tempo é dinheiro é uma baboseira que só serve para manter a insanidade da relação humana com o passar do dito cujo. Aceitar que tempo é dinheiro implica reconhecer no tempo as mesmas características do dinheiro e trazer para sua utilização as mesmas culpas judaico-cristãs no trato com o chamado vil metal. A sociedade moderna considera que o gasto do dinheiro tem de ser excessivamente ponderado – então, seu desperdício deve ser sumariamente condenado. Se tempo é dinheiro, o mesmo seria verdade com o gasto do tempo. No entanto, existe uma grande diferença entre os dois.

O dinheiro pode ser armazenado, e podemos controlar seu fluxo. Já o tempo é um fluir contínuo e incontrolável – ele será gasto, quer queiramos ou não. Se aceitarmos que tempo é dinheiro, a simples decisão equivocada de optar por uma rota com mais trânsito nos traria uma ansiedade insuportável, pois então estaríamos perdendo uns trocados enquanto parados no engarrafamento. A escolha de um projeto, curso ou atividade que não dê grandes retornos, então, seria o mesmo que torrar uma pequena fortuna. Mas temos de nos lembrar que o tempo não teria parado de acordo com nossas escolhas mais acertadas: ele teria passado de qualquer jeito e, de uma forma ou outra, teríamos de usá-lo para alguma coisa. Além disso, aprendemos com as nossas experiências. Utilizar o tempo em algo que não dê o resultado que esperamos é bem diferente que empregar dinheiro em algo errado ou inútil.

Outro ponto a se considerar é que, se tempo é dinheiro, faz todo o sentido guardarmos tempo para o futuro. Ou seja, deveríamos fazer uma previdência privada de tempo, deixando de utilizá-lo agora para dispor dele no futuro. Só que , como tempo não é dinheiro e nem pode ser armazenado, essa poupança é inteiramente inútil . Mesmo assim, quantas pessoas deixam as férias sempre para depois? E aquela viagem dos sonhos? “Ah! Quando eu me aposentar”, respondem alguns. E por que não reduzir o ritmo absurdo de trabalho? “Ah, porque temos de aproveitar o momento”, diriam outros.

Nada mais néscio, para usar uma linguagem bíblica. Em primeiro lugar, há o risco de morrermos sem termos conseguido nos aposentar. Porém, mesmo que alcancemos a velhice, talvez já não tenhamos condições físicas para executar os projetos tantas vezes postergados. Mais uma vez, temos de lembrar que o tempo flui como um rio; não há como armazená-lo para uso posterior. Então, por que não empreender agora mesmo a viagem sonhada ou começar imediatamente aquele curso que tanto queremos fazer? Faz sentido guardar dinheiro para um futuro mais tranquilo, mas guardar tempo é impossível.

Finalmente, vale lembrar que tempo e dinheiro são tão diferentes que as pessoas com mais tempo são justamente aquelas mais pobres, e os mais ricos são os que menos têm tempo. Se tempo fosse dinheiro e vice-versa, mendigos e desempregados não hesitariam em trocar tempo por dinheiro, enquanto altos executivos, milionários e líderes mundiais não pensariam duas vezes para comprar tempo.

Sim, o tempo é uma riqueza, dada por Deus em quantidades individuais a cada um de nós. Mas ele não pode ser vendido ou comprado. Portanto, repense como você utiliza seu tempo e deixe de acreditar que ele é dinheiro. E não se sinta culpado pelos momentos em que você não faz nada. Você não está jogando dinheiro fora; apenas usando o seu tempo de uma forma que lhe agrada e lhe dá prazer. E mesmo aquele tempo aparentemente perdido no trânsito, na internet lenta ou atendendo a operadora de telemarketing não é dinheiro jogado fora. É tempo que poderia ser usado para outras coisas, é verdade; mas procure usar este tempo para refletir e pensar em vez de apenas ficar irritado com a fictícia perda financeira porque tempo seria dinheiro. Como disse um dos maiores poetas brasileiros, “o tempo não para”. E tomarmos consciência disto é uma grande libertação.